A HISTÓRIA 

 APRESENTAÇÃO E HISTÓRIA DA FAZENDA TOZAN

 

A Fazenda Tozan tem muita história para contar. Além da terra fértil, possui um patrimônio histórico e cultural datado de 1798 e preservado até os dias de hoje. É a precursora do grupo Tozan do Brasil - um dos mais importantes grupos japoneses aqui instalados. 

Localizada a 11 quilômetros do centro da cidade de Campinas - SP, a Fazenda Tozan proporciona uma verdadeira viagem no tempo. Sua história começa em 1927, quando a família Iwasaki, fundadora do grupo Mitsubishi, compra a propriedade. Inicialmente denominada fazenda Ponte Alta, passou pelos ciclos da cana-de-açúcar e cultura cafeeira, incluindo a abolição dos escravizados, a imigração européia e o confisco durante a Segunda Guerra Mundial. 

Hoje a fazenda é considerada uma das mais bem cuidadas propriedades históricas do Brasil, preservando sua arquitetura, mobiliário e objetos de época. Falar da Fazenda Tozan é contar um pouco da História do Brasil. 

 

DE PONTE ALTA A TOZAN

 

A fazenda Ponte Alta foi fundada em 20 de novembro de 1798, resultado de um “dote de sesmaria”, tendo aproximadamente 4400 hectares. A fazenda localizava-se nas proximidades da Estrada dos Goiases, eixo de penetração paulista aberto em 1722 (a partir da Vila de São Paulo do Piratininga – hoje cidade de São Paulo) para alcançar as minas de Goiás e que no curso do século XVIII possibilitara a distribuição e fixação das primeiras sesmarias na região. 

Sesmaria era a concessão de terras no Brasil pelo Governo Português com o intuito de desenvolver a agricultura, a criação de gado e, mais tarde, o extrativismo vegetal, tendo se expandido à cultura do café e do cacau. Ao mesmo tempo, servia para povoar o território e a recompensar nobres, navegadores ou militares por serviços prestados à coroa portuguesa. O sistema de sesmarias do Brasil era um prolongamento do sistema jurídico português. A sesmaria representava a exploração econômica da terra de maneira rápida, tendo fundamentado a organização social e do trabalho desenvolvidos no Brasil, assim como o latifúndio monocultor e o trabalho das pessoas escravizadas.

 

 

Floriano de Camargo Penteado recebeu a fazenda em consórcio com seus primos João Leite Camargo Penteado, José Inácio de Camargo Penteado, Dona Ana de Campos e Dona Bárbara. Tinha como base o plantio de cana-de-açúcar, constituindo-se num engenho produtor de 1550 arrobas, tendo sido considerada, segundo recenseamento da época, como a fazenda que mais produzia. 

Em 02 de novembro de 1811, seus sócios venderam suas partes, tornando-se Floriano de Camargo Penteado, então, o único proprietário das Terras da Fazenda Ponte Alta. Senhor de engenho respeitado e influente, colocou a Fazenda Ponte Alta à frente, em 1818, com aproximadamente 4% do açúcar produzido em Campinas.

Em 1838, Francisco José de Camargo Andrade, filho do Capitão-Mor Floriano de Camargo Penteado e de Dona Paula Joaquina de Andrade, herdou as terras da Fazenda Ponte Alta, após o falecimento de seu pai naquele ano. Nascido em 1799, seguiu a trajetória de seu pai, exerceu vários cargos públicos e se tornou Capitão, figurando seu nome entre os chamados “homens bons” (denominação que surgiu na colônia para determinar as pessoas que poderiam ocupar cargos políticos na esfera local).

A partir de 1854, a Fazenda Ponte Alta não era apenas monocultora e o café já começava a ser incorporado com outros produtos de subsistência cultivados (cana-de-açúcar, milho, feijão), figurando a fazenda como uma das 89 propriedades de café do município e convivendo com a cana-de-açúcar, atingindo 1.500.000 arrobas em 1886 (correspondentes a 12,12% da produção da Província de São Paulo, o maior centro produtor de café durante o século XIX e praticamente ao longo do século XX, sendo considerada a capital agrícola do país) – o preço do café estava em alta nessa época.

Em 1885, Álvaro Xavier de Camargo Andrade, filho de Francisco José de Camargo Andrade e de Dona Ana Novais de Camargo Andrade, herdou as terras da Fazenda Ponte Alta que se encontrava estabelecida como fazenda de café, possuindo 60 mil pés. Nasceu em Campinas em 03 de dezembro de 1839 e casou-se com Ângela Isabel de Camargo Andrade. Seguindo a tradição de sua família de homens respeitáveis e financeiramente estáveis, fazia parte da sociedade campineira. 

Álvaro Xavier de Camargo Andrade, último herdeiro brasileiro da então Fazenda Ponte Alta, morreu em 1924. Seus filhos, que não tinham interesse pelas atividades rurais, juntamente com sua viúva, prevendo a crise que se aproximava, decidiram dividir as terras entre os membros da família e vender parte delas – correspondente a 3700 ha.  

Em 1927, Hisaya Iwasaki, membro da família Iwasaki, fundadora do Grupo Mitsubishi, adquiriu fazendas em diversos países e, aqui no Brasil, atraídos pela tecnologia e desenvolvimento já existentes na cidade de Campinas e pela grande concentração de fazendas cafeeiras na região, adquiriu a Fazenda Ponte Alta, com 3700 hectares de terra. Como o café estava em baixa nessa época, a fazenda foi comprada por um preço menor, mas a produção de café foi mantida. Seu grande objetivo era trazer tecnologia de cultivo, realização de experiências agropecuárias, expansão das atividades econômicas do grupo e a formação de uma propriedade agrícola modelo fora do Japão e, principalmente, servir como ponto de referência para os imigrantes japoneses, que chegavam ao Estado de São Paulo desde 1908, além de constituir um espaço de aprendizagem no novo mundo.

 

O local da fazenda foi escolhido pela proximidade da cidade de Campinas, do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e da ESALQ (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba). Os japoneses introduziram na Fazenda outras atividades e culturas, e a ajuda do grupo Mitsubishi foi decisiva para sua sobrevivência à crise mundial de 1929. 

De Fazenda Ponte Alta o nome mudou para fazenda Monte D’Este, hoje Tozan, onde “TO” significa leste e “ZAN” significa monte – uma alusão ao monte “TAIZAN” fazendo uma homenagem a Yataro Iwasaki, fundador do Grupo Tozan, que utilizava este nome como pseudônimo em seus poemas. 

Foi enviado ao Brasil o Dr. Kiyoshi Yamamoto, agrônomo experiente e muito premiado, que iniciou a administração da Fazenda e a diversificação de culturas na área onde era cultivado o café.  Com a implantação do uso racional da terra, afirmava que era possível aumentar o seu cultivo sem cansá-la, uma vez que, no Brasil, havia o costume de abandoná-la quando esta se desgastava, seguindo então para outras áreas. No Japão, pelo espaço reduzido, não se podia fazer isso: lá, plantações de arroz e de outros tipos de cereais são cultivados no mesmo espaço há mais de 400 anos.

Com o uso do adubo verde, natural e de matérias orgânicas, a Fazenda Monte D’este foi crescendo. A mentalidade de recuperar o solo que se desgastava e a fertilização da terra foram as metas traçadas pelos japoneses da família Iwasaki e concretizadas com as técnicas milenares de cultivo do solo.

Para garantir a sustentabilidade da empresa, foram cultivados também: algodão, milho e cana-de-açúcar. O reflorestamento e o aumento da área destinada à criação do gado de corte foram outras práticas adotadas, além de pesquisas e experiências com cítricos. A grande inovação trazida pelo Dr. Yamamoto foi o uso da “Vespa de Uganda” (predador da broca, praga que ataca os cafezais) objeto de sua tese de doutorado pela Universidade de Ciências Agronômicas de Tóquio, Japão, no combate à “broca do café”, uma das piores pragas para o café naquela época.

Dois anos após a compra da fazenda, a “quebra da bolsa” de Nova York, em 1929, abalou a economia mundial e o poder político dos cafeicultores em nosso país. No entanto, a Fazenda Monte D’Este supera essa crise em razão da diversificação das culturas aqui desenvolvidas aliada ao subsídio do capital vindo do Japão, o que ajudou a manter o projeto de Hisaya Iwasaki.  

Em 1934, instalou-se no Brasil a Indústria Agrícola Tozan Ltda., fabricante de produtos para culinária japonesa e do renomado Saquê Azuma Kirin. O local escolhido foi uma parte da fazenda, ao lado do Rio Atibaia, no bairro Carlos Gomes, devido à qualidade da água (retirada a 130m de profundidade), fundamental para garantir o sabor e qualidade do Saquê Azuma Kirin e dos demais produtos. Fundada em 15 de Novembro de 1934, a Indústria Agrícola Tozan Ltda. é sinônimo de pioneirismo e liderança de mercado até os dias de hoje por ser a primeira indústria japonesa no Brasil e a primeira a fabricar o Saquê Japonês Azuma Kirin na América Latina, além de oferecer todos os temperos e produtos tradicionais da culinária japonesa, oriundos de processos de fermentação da soja, do trigo e do arroz. 

 

Durante o período da Segunda Guerra Mundial (1939–1945) a Fazenda foi embargada pelo governo brasileiro, em função dos lados opostos no conflito e ocupada pelo exército pelo fato de pertencer a uma família japonesa. Em 1940 a circulação de todas as publicações em japonês foi proibida. No ano seguinte, chegaram as últimas correspondências do Japão. Até o fim da guerra os japoneses viveram um período de rigorosas restrições, inclusive com o confisco de seus bens.   Foi um período de extrema opressão aos japoneses da fazenda. As terras ficaram praticamente abandonadas. Após o término da Segunda Guerra Mundial, graças à amizade e influência do Dr. Yamamoto junto ao então presidente Getúlio Vargas, parte da fazenda (1700 ha) foi devolvida à família Iwasaki, porém, passava por dificuldades financeiras em razão de seu abandono e a solução encontrada foi a venda de parte dela, aos poucos, passando, então, dos 1700ha  chegando até os dias de hoje a uma área de 800ha. Novas máquinas foram adquiridas das empresas Machinas São Paulo e Pinhalense para o beneficiamento das culturas ali plantadas: café, arroz, feijão, milho, e a criação de gado de corte da raça Nelore. A mão de obra utilizada passou a ser a dos moradores da colônia da fazenda.

A bicentenária Fazenda Tozan sobreviveu a diferentes períodos que marcaram a história mundial e do nosso país: do ciclo da cana-de-açúcar à transição para a cultura cafeeira e a diversificação de culturas, a abolição dos escravizados, a utilização de mão de obra dos imigrantes, a crise mundial de 1929, a Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje com a utilização de mão de obra assalariada.

A terra fértil e a riqueza de seu patrimônio histórico e cultural abriram espaço, nos dias de hoje, para um novo potencial: o turismo rural. Antigas construções da fazenda tiveram suas características originais restauradas para proporcionar aos turistas, visitantes e aos alunos de escolas da região e de outras partes do Brasil e do mundo, uma verdadeira “volta no tempo” em cenários de natureza exuberante. Além de conhecer aspectos importantes da história do Brasil, os visitantes também podem ver de perto todas as etapas de produção do café, aprendendo um pouco mais sobre o desenvolvimento que o chamado “ouro verde” trouxe para a região de Campinas e para o estado de São Paulo.  Toda essa beleza e riqueza cultural podem ser conferidas graças à organização de uma estrutura de visitas monitoradas, onde um guia cultural acompanha os grupos de visitantes aos diversos pontos da Fazenda. 

Atualmente a Fazenda Tozan do Brasil tem uma área aproximada de 800 hectares, sendo 300 hectares (34 talhões) destinados à plantação de café, com 1.300.000 pés plantados e uma média de produção anual variando entre 7.000 a 10.000 sacas beneficiadas de 60 kg cada (equivalentes a 420 a 600 toneladas). A busca pela melhor qualidade faz com que seu café seja reconhecido internacionalmente.